Durante esse meu primeiro mês tenho chamado vários pais a
escola a fim de conhecer melhor o histórico familiar e escolar de meus alunos.
Optei em não chamá-los todos ao mesmo tempo porque sabia que, pela convivência com
os alunos, havia casos mais e menos graves e, na intenção de não expor os problemas de uns a outros estou
chamando aos poucos. Essa oportunidade tem me permitido ouvir coisas, no mínimo
inusitadas. Vamos aos casos:
CASO 1
“Meu filho, desde a barriga, sofre inúmeros problemas. Minha
mãe, que é viciada em drogas e alcoólatra, me deu vários chutes na barriga
durante a gravidez. Os primeiros três anos de vida dele passamos no hospital porque ele tinha um
problema de coração. Ele sempre foi revoltado pela ausência do pai. Seu histórico de inúmeras expulsões escolares
é por causa dessa revolta.”
CASO 2
“Quando a senhora ligou querendo falar comigo já comecei a
passar mal mesmo sabendo que não era nada grave. Mas a culpa não é sua. É que
qualquer ligação da escola me lembra o meu filho que saiu de casa para ir a
escola e foi pra praia e morreu afogado. Há nove meses também perdi uma filha com
problemas de coração. Se eu não cobro muito desse meu filho aí, professora, é
porque tenho medo de perdê-lo também. Já tive quatro filhos e agora só tenho 2.”
CASO 3
Diálogo:
EU: mãe, a senhora sabe que seu filho lê e escreve com muita
dificuldade?
MÃE: sei sim..... mas ele sempre esteve na escola.(com um
receio de que minha fala fosse uma acusação)
EU: Eu sei, mãezinha. Mas por quê a senhora acha que ele não
sabe ler e nem escrever direito até hoje, com 16 anos?
MÃE: Ele sempre estudo, professora! Acho que é por falta de
vergonha na cara
EU: Mãe, a senhora casou novamente, constituiu sua nova família,
teve uma filha e o deixou com a avó. O
pai dele, casou novamente, constituiu sua nova família, teve outros dois filhos
e o deixou com a mãe dele. E a senhora realmente acha que, se ele tem
problemas, a responsabilidade é só dele? É Só falta de vergonha na cara?
MÃE: *............................* (silenciou e os olhos
encheram de lágrima)
EU: Mãezinha, nossos filhos precisam da gente. Por mais que
a decisão às vezes seja por uma situação financeira melhor para eles, o lugar
do pai e da mãe nenhum vô ou vó ocupam. Ele precisa de um controle mais de
perto. Ele falta aula demais, não me respeita. Precisa de alguém que pergunte a
ele todas as noites como foi o dia dele, por exemplo.
MÃE: Mas eu faço isso com a minha filha todos os dias!
EU: *.....................* (silenciei e meus olhos se
encheram de lágrimas)
CASO 4
Um pai que foi conversar comigo:
“Professora, deixa eu falar com esses moleques! Eles são
muito grandalhões e não respeitam a senhora porque a senhora é mulher! Deixa eu
entrar aí e dizer pra eles umas verdades da vida dura que é lá fora, das drogas
e tudo mais. Deixa eu dizer o quanto o estudo faz falta pra mim hoje em dia!
Preciso dizer, professora, porque senão, dentro de 5 anos no máximo, se esses
moleques não estiverem na faculdade, vão virar tudo bandido.”
CASO 5
“Professora, eu sei que
meu filho é muito inteligente e que só veio pra essa turma porque ele é muito
bagunceiro. Mas não desiste dele não, professora. Eu gostei da senhora e achei
bastante firme com eles. Não desiste dele não, viu?”
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