Assumi um novo desafio na rede municipal do Rio de Janeiro. Voltei para os projetos. Projetos esses que não acredito e muito menos defendo sua ideologia. Entretanto, é um dinheiro necessário para o meu projeto de vida nesse momento.
Assumi e, como sempre, busco fazer o melhor trabalho POSSÍVEL. O melhor possível hoje, pra mim, não pode afetar meu tempo de lazer e precisa afetar o mínimo possível minha estrutura emocional. Sendo assim, estou tentando mais esse desafio.
Ontem meu contato com o grupo, uma turma de 21 alunos, dos quais só conheci quinze até agora, foi o mais difícil. A turma testou o tempo inteiro a minha paciência e a minha autoridade. Eu não reagi. Até me estranhei. Mas fiquei realmente impactada com o que percebi logo no início da aula e gostaria de compartilhar isso com vocês:
Abri o 'google maps' e pedi para que eles me mostrassem o lugar onde moravam. Então fomos tentando encontrar as comunidades. Comparando com o mapa oficial da cidade, pedi para que observasse se suas comunidades estão presentes nesses mapas. E é claro que eles não encontraram.
Pedi para que respondessem a um questionário com perguntas como: você tem saneamento básico na sua comunidade? Tem comércio próximo? Conhece algum vizinho com nível superior? Quantos amigos já morreram no crime? Quantas amigas já engravidaram? Você entende porque sua comunidade não aparece no mapa oficial da cidade?
O resultado é realmente impressionante! Todos, literalmente TODOS já perderam amigos no crime e tem amigas grávidas na adolescência. O que conhecia a maior quantidade de vizinhos com nível superior, conhecia 5 pessoas. Alguns tem a compreensão parcial do motivo de serem INEXISTENTES no mapa da cidade. A maioria não conseguem ter nem a compreensão mínima do porquê isso acontece.
Eles só reagem. Chutam, brigam, batem, gritam o TEMPO TODO. Só conseguem reagir ao que vivem. Mas não conseguem nem ao menos entender quem são e porque agem assim.
Os 'pedagogos' da rede não gostam quando falo assim, mas ainda assim vou repetir para ver se ampliam o entendimento do que quero dizer: o ser vivo que reage ao que sente sem ao menos raciocinar sobre o porquê de sua reação são os bichos. E eles, nossos alunos da rede, especificamente os alunos do projeto, agem como BICHOS. Reagem o tempo todo as agressões dos colegas e agridem o tempo inteiro sem ao menos entender o porquê. Sem ao menos concluírem que esse anseio agressivo é o reflexo do que vivem: do desprezo, da miséria da desigualdade social na qual estão constantemente inseridos. Alguns deles ainda vivem aqui, pertinho de nós, em Manguinhos ou no Jacaré, sem saneamento básico! Em pleno século 21!
Conteúdo pra eles? Substantivo, Adjetivo, Expressões matemáticas? Pode ser.... o básico do básico de tudo isso pra não dizerem que estou fugindo de um tal projeto pedagógico tão desconexo, desamarrado, desTUDO!
Conteúdo pra eles é a REFLEXÃO. Sobre o que são, onde estão inseridos, como são vistos e sobre as possíveis opções do futuro. Opções essas que não são muito promissoras, é verdade. Mas existem. Serão números estatísticos da classe operária ou números estatísticos dos jovens mortos no crime.
Fiquei tentando encontrar meu papel ali. O que ensinar a jovens que já sabem tanto. Sabem do que eu nunca vi. Afinal, nunca perdi nenhum amigo pro crime, tenho e sempre tive casa no asfalto (como eles falam), saneamento básico, não engravidei na adolescência e não me lembro de nenhuma amiga grávida antes dos 18. Fui criada por uma família de brancos! Não tenho a menor ideia prática do que eles passam! Conclui que, se ao menos conseguir fazer com que reflitam, com que entendam o lugar deles e porque reagem assim, já estarei minimamente satisfeita? Não.... conformada. Um pouco mais conformada.
Assumi e, como sempre, busco fazer o melhor trabalho POSSÍVEL. O melhor possível hoje, pra mim, não pode afetar meu tempo de lazer e precisa afetar o mínimo possível minha estrutura emocional. Sendo assim, estou tentando mais esse desafio.
Ontem meu contato com o grupo, uma turma de 21 alunos, dos quais só conheci quinze até agora, foi o mais difícil. A turma testou o tempo inteiro a minha paciência e a minha autoridade. Eu não reagi. Até me estranhei. Mas fiquei realmente impactada com o que percebi logo no início da aula e gostaria de compartilhar isso com vocês:
Abri o 'google maps' e pedi para que eles me mostrassem o lugar onde moravam. Então fomos tentando encontrar as comunidades. Comparando com o mapa oficial da cidade, pedi para que observasse se suas comunidades estão presentes nesses mapas. E é claro que eles não encontraram.
Pedi para que respondessem a um questionário com perguntas como: você tem saneamento básico na sua comunidade? Tem comércio próximo? Conhece algum vizinho com nível superior? Quantos amigos já morreram no crime? Quantas amigas já engravidaram? Você entende porque sua comunidade não aparece no mapa oficial da cidade?
O resultado é realmente impressionante! Todos, literalmente TODOS já perderam amigos no crime e tem amigas grávidas na adolescência. O que conhecia a maior quantidade de vizinhos com nível superior, conhecia 5 pessoas. Alguns tem a compreensão parcial do motivo de serem INEXISTENTES no mapa da cidade. A maioria não conseguem ter nem a compreensão mínima do porquê isso acontece.
Eles só reagem. Chutam, brigam, batem, gritam o TEMPO TODO. Só conseguem reagir ao que vivem. Mas não conseguem nem ao menos entender quem são e porque agem assim.
Os 'pedagogos' da rede não gostam quando falo assim, mas ainda assim vou repetir para ver se ampliam o entendimento do que quero dizer: o ser vivo que reage ao que sente sem ao menos raciocinar sobre o porquê de sua reação são os bichos. E eles, nossos alunos da rede, especificamente os alunos do projeto, agem como BICHOS. Reagem o tempo todo as agressões dos colegas e agridem o tempo inteiro sem ao menos entender o porquê. Sem ao menos concluírem que esse anseio agressivo é o reflexo do que vivem: do desprezo, da miséria da desigualdade social na qual estão constantemente inseridos. Alguns deles ainda vivem aqui, pertinho de nós, em Manguinhos ou no Jacaré, sem saneamento básico! Em pleno século 21!
Conteúdo pra eles? Substantivo, Adjetivo, Expressões matemáticas? Pode ser.... o básico do básico de tudo isso pra não dizerem que estou fugindo de um tal projeto pedagógico tão desconexo, desamarrado, desTUDO!
Conteúdo pra eles é a REFLEXÃO. Sobre o que são, onde estão inseridos, como são vistos e sobre as possíveis opções do futuro. Opções essas que não são muito promissoras, é verdade. Mas existem. Serão números estatísticos da classe operária ou números estatísticos dos jovens mortos no crime.
Fiquei tentando encontrar meu papel ali. O que ensinar a jovens que já sabem tanto. Sabem do que eu nunca vi. Afinal, nunca perdi nenhum amigo pro crime, tenho e sempre tive casa no asfalto (como eles falam), saneamento básico, não engravidei na adolescência e não me lembro de nenhuma amiga grávida antes dos 18. Fui criada por uma família de brancos! Não tenho a menor ideia prática do que eles passam! Conclui que, se ao menos conseguir fazer com que reflitam, com que entendam o lugar deles e porque reagem assim, já estarei minimamente satisfeita? Não.... conformada. Um pouco mais conformada.
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